Lula volta a recorrer a “dedada” e “varanda do pum” em discursos públicos
Presidente repete expressões coloquiais ao falar de prevenção ao câncer de próstata e habitação popular; recorrência expõe uma estratégia de comunicação que aproxima temas públicos do cotidiano, mas frequentemente desloca o foco para a forma da mensagem.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou nesta semana a recorrer a uma expressão que já havia utilizado outras vezes ao defender que homens realizem exames preventivos contra o câncer de próstata.
Durante agenda em Belém, ao comentar a realização de uma cirurgia robótica de próstata, Lula classificou como “covarde” a resistência masculina aos exames e afirmou que mulheres estariam acostumadas desde cedo a procedimentos médicos, enquanto homens evitariam o toque retal.
A declaração ganhou repercussão principalmente por uma frase em que o presidente disse que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”. O contexto integral mostra que Lula tratava de exames preventivos de saúde, e não de abuso sexual, interpretação que passou a circular em publicações de adversários políticos.
Mas a referência ao exame de próstata não foi inédita.
“Dedada” já apareceu outras vezes
Em fevereiro deste ano, durante evento em Mauá, na Grande São Paulo, Lula voltou a criticar homens que evitam exames preventivos e afirmou que o “homão tem vergonha de tomar uma dedada”.
A expressão reapareceu em março, durante a Caravana Federativa em Niterói.
Na ocasião, o presidente afirmou que homens que evitam o exame poderiam enfrentar consequências mais graves caso o câncer fosse identificado tardiamente e voltou a utilizar a palavra “dedada” para se referir ao procedimento.
O argumento central permaneceu o mesmo nas diferentes ocasiões: incentivar a prevenção e criticar a resistência masculina à realização de exames médicos.
A forma escolhida para transmitir a mensagem, porém, passou a competir com o próprio conteúdo.
A recorrente “varanda do pum”
Algo semelhante acontece quando Lula fala sobre habitação popular.
Desde 2023, o presidente utiliza repetidamente a expressão “varanda do pum” ao defender que imóveis destinados às famílias de baixa renda tenham varandas.
Em julho daquele ano, durante a sanção do novo Minha Casa, Minha Vida, Lula contou que havia questionado por que habitações populares não poderiam receber uma pequena varanda. Em tom bem-humorado, associou o espaço à possibilidade de alguém se afastar da família quando estivesse com problemas intestinais.
O assunto voltou em junho de 2024, durante entrega de moradias no Rio de Janeiro ao lado do prefeito Eduardo Paes. Lula novamente defendeu que residências populares tenham varanda e repetiu a referência à flatulência para ilustrar seu argumento.
Em maio de 2026, durante participação no programa Sem Censura, o presidente retomou a história. Desta vez, chegou a brincar que o morador poderia sair para a varanda, fingir que estava olhando a lua e liberar seu “gás do efeito estufa”.
Uma característica da comunicação de Lula
Os episódios apresentam uma característica conhecida da comunicação política de Lula: transformar assuntos técnicos ou políticas públicas em situações cotidianas, utilizando linguagem informal e exemplos facilmente compreensíveis.
No primeiro caso, o tema é sério: prevenção e diagnóstico precoce do câncer.
No segundo, trata-se de qualidade habitacional e do entendimento de que moradias destinadas à população de menor renda também devem oferecer conforto e dignidade.
Mas a repetição de expressões como “dedada” e “varanda do pum” produz um efeito paralelo.
A frase inusitada frequentemente se torna mais noticiada do que a política pública que o presidente pretendia defender.
Quando a forma supera o conteúdo
Esse tipo de comunicação pode ter uma vantagem política evidente: transforma assuntos complexos em imagens simples e memoráveis.
Ao mesmo tempo, cria riscos.
Uma frase mal formulada pode ser recortada, reinterpretada ou utilizada por adversários, especialmente em um ambiente eleitoral dominado por vídeos curtos e redes sociais.
Foi exatamente o que ocorreu com a declaração feita em Belém.
O trecho sobre mulheres receberem “toque desde pequenas” circulou separado do restante do discurso e passou a ser associado por adversários a uma interpretação que não corresponde ao contexto integral da fala.
O episódio mostra uma tensão recorrente na comunicação política contemporânea.
Uma linguagem popular pode aproximar o governante do eleitor. Mas, quando a frase se torna mais forte do que a mensagem, o resultado pode ser o oposto: o debate passa a girar em torno das palavras escolhidas, enquanto a política pública desaparece do centro da conversa.
No caso de Lula, essa não parece ser uma ocorrência isolada.
É uma característica recorrente de seu modo de comunicação.
Fontes Consultadas
As informações apresentadas nesta matéria foram apuradas de forma independente pela equipe editorial do Vetor Executivo, através de fontes oficiais e especialistas do setor.
