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Geopolítica

Lula prova que ninguém precisa de IA para espalhar fake news

Presidente foi contestado ao vivo depois de mencionar informação falsa envolvendo Flávio Bolsonaro e a Padroeira do Brasil; episódio mostra que a desinformação eleitoral não depende de inteligência artificial para ganhar escala.

Por Marcos Silva
29 DE SET. DE 20264 min de leitura
Lula prova que ninguém precisa de IA para espalhar fake news

Em meio à preocupação crescente com deepfakes, inteligência artificial e conteúdos sintéticos nas eleições de 2026, um episódio envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou que a disseminação de uma informação falsa pode ocorrer de forma muito mais simples: pela repetição de algo que ganhou força nas redes sociais.

Durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, exibida no domingo, 27, Lula trouxe espontaneamente para a conversa a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

O presidente afirmou que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. A declaração fazia referência à narrativa que passou a circular nas redes segundo a qual Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, teria intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

A jornalista Adriana Araújo interrompeu Lula e questionou se a história não era uma fake news.

Lula respondeu que não sabia se a informação era falsa e acrescentou que o “dado concreto” era a forte circulação do assunto nas redes sociais.

O problema: a informação já havia sido desmentida

A narrativa associando Flávio Bolsonaro a uma tentativa de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida não encontra respaldo nos fatos apurados até agora.

O Projeto Comprova verificou que Flávio não fez essa afirmação nem indicou intenção de promover a mudança. O episódio resgatou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli, que pretendia alterar a forma como a legislação se referia à padroeira. A proposta foi arquivada em 2008 e não tem autoria de Flávio Bolsonaro.

A própria GloboNews, que havia discutido uma suposta mobilização sobre o tema, posteriormente corrigiu a informação referente ao projeto.

O caso também chegou à Justiça Eleitoral. André Mendonça determinou a retirada de publicações relacionadas à narrativa, tratando determinados conteúdos como notoriamente inverídicos. A disputa depois avançou para o STF, produzindo decisões divergentes entre ministros.

Quando viralização vira argumento

A resposta de Lula chama atenção por um motivo específico.

Ao ser confrontado sobre a veracidade da narrativa, o presidente não apresentou documento, declaração ou iniciativa de Flávio Bolsonaro que sustentasse a associação.

Apontou, em vez disso, para a própria repercussão do assunto nas redes.

Esse é justamente um dos mecanismos mais básicos da desinformação digital: uma afirmação pode ganhar aparência de verdade porque muitas pessoas estão falando sobre ela, não porque existam evidências que a sustentem.

A quantidade de compartilhamentos não transforma uma informação em fato.

A relevância do episódio aumenta porque acontece durante uma eleição em que inteligência artificial e desinformação se tornaram temas centrais para autoridades eleitorais.

O TSE criou regras específicas para conteúdos sintéticos, deepfakes e materiais manipulados por IA, além de mecanismos para conter fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados.

A IA ampliou o problema, mas não o criou

O avanço tecnológico tornou a fabricação de conteúdos falsos muito mais sofisticada.

Dados do Panorama da Desinformação no Brasil mostram que o uso de inteligência artificial em conteúdos falsos verificados cresceu 308% entre 2024 e 2025. Deepfakes, vozes sintéticas e imagens fabricadas passaram a ocupar parcela crescente das checagens.

Mas a tecnologia não é requisito para que uma informação falsa se espalhe.

Uma frase, um recorte fora de contexto ou a repetição pública de uma alegação já podem produzir milhões de impressões.

E quando essa repetição parte de uma autoridade política com enorme capacidade de alcance, seu impacto potencial aumenta.

Isso vale para Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

Desinformação não tem exclusividade ideológica

Também seria incorreto tratar o problema como exclusividade de um campo político.

Durante a própria campanha de 2026, verificadores identificaram conteúdos falsos e materiais produzidos com IA relacionados a diferentes candidatos e grupos políticos. Um levantamento citado pela Agência Brasil apontou inclusive uso irregular de conteúdo sintético por perfis ligados ao PL e à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O episódio envolvendo Lula, portanto, não demonstra que um lado inventou a desinformação.

Mostra algo mais básico e talvez mais importante:

a tecnologia pode tornar uma mentira mais convincente, mas não é necessária para torná-la popular.

Em uma eleição marcada pela disputa permanente de narrativas, transformar repercussão em evidência é uma das formas mais antigas de fazer uma afirmação duvidosa sobreviver.

E nenhuma inteligência artificial é necessária para isso.

Fontes Consultadas

As informações apresentadas nesta matéria foram apuradas de forma independente pela equipe editorial do Vetor Executivo, através de fontes oficiais e especialistas do setor.